quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Eternidade


Nemo se levantou. Não se lembrava de ter deitado ou levantado. Só estava ali como se estivesse deitado desde o inicio dos tempos. Ou talvez antes disso.
Mas agora tinha se levantado e isso é o que era importante. Olhou em volta. Estava no meio de uma planície verde e ensolarada, por onde corria mansamente um riacho de águas claras. Cercando a planície, havia um bosque de árvores frutíferas. Ele começou a andar. Não sabia o porquê nem para onde ia, mas seguia com rapidez indo sempre em frente.
O chão abaixo dele era macio e não havia nenhuma pedra para servir de obstáculo. O capim era alto, mas não se movia enquanto ele caminhava rumo a lugar nenhum. Conforme andava o bosque ficava cada vez mais próximo e Nemo ia em direção a ele, embora não tivesse vontade.
 Chegando ao bosque, percebeu que as árvores eram como quaisquer outras árvores, e o bosque era exatamente igual a qualquer outro bosque. Exceto pelos detalhes. No bosque reinava o mais profundo silêncio. Não se ouvia o menor farfalhar das folhas ou o mais tímido piar dos pássaros. Não havia uma única folha caída e o chão era coberto por musgo verde e úmido.
Embora não tivesse fome, pegou um fruto e o comeu. Embora o fruto fosse macio e suculento, não tinha gosto algum. Era como se nunca o tivesse comido. Acabado o fruto, voltou pelo mesmo caminho que veio. E no chão não havia nenhuma marca, nenhum indicio de que ele tivesse passado por ali antes.
Ele passou pelo lugar onde começou e seguiu adiante, se aproximando do riacho, que corria sobre um leito de pequenas pedras regulares e arredondadas. Sem sede, Nemo pegou a água com as mãos e levou a boca. A água tinha um gosto metálico e não refrescava. Não era quente nem fria. Era como se não tivesse sido bebida.
Impassível, mergulhou no rio e ficou boiando ao sabor da fraca correnteza. Ao mergulhar, não fez barulho e nenhum barulho se ouvia do rio, nenhum murmurar das águas. Ele foi para a margem e saiu do rio. Estava seco como se não tivesse entrado. Foi caminhando de volta, sob um céu azul e sem nuvens onde um sol morno estendia seus pálidos raios sobre a planície sem fazer sombra. Por fim, voltou ao exato lugar onde estivera deitado.
Nemo deitou. Não se lembrava de ter levantado ou deitado. Só estava ali como se fosse permanecer deitado até o final dos tempos. Ou talvez depois disso.

7 comentários:

  1. Gostei muito do seu texto, parabéns. :)

    ResponderExcluir
  2. Marlon Augusto09/08/2010 20:21

    Me conquistou pelo estilo!
    Aeee Gregório, parabéns .. ")

    ResponderExcluir
  3. Título perfeito para um texto mais que perfeito. Parabéns! :)

    ResponderExcluir
  4. Estilo interessante. Gostei.

    ResponderExcluir
  5. Poxa!Agora vc me "pegou". Vc escreveu isso p/ mim?! Brincadeiras à parte ... Me identifiquei demais com o seu texto.Eu as vezes sou "uma Nemo".Seu modo , estilo de narrar com detalhes a Cronosfera ( a natureza)é bem positivo , ou melhor , acolhedor.Vc realmente gosta do q faz e faz bem. Parabéns! E agradecida.

    ResponderExcluir
  6. Que bom que você se identificou com o texto. Esse é um dos textos mais antigos que eu tenho. Ele foi escrito antes de eu pensar em ter um blog. Quando eu ainda estava no colégio.

    ResponderExcluir
  7. Pois é . Me identifiquei total. Então ... Quem sabe ... Vc não "descola" outras "antiguidades" p/ gente ler e "viajar" - na boa. Tenho certeza q vai dar ibope legal. Pense nisso com carinho , meu Amigo. Bjo.

    ResponderExcluir